segunda-feira, 4 de agosto de 2008

CINE-FILHO DA AMÉRICA

PUBLICADO NA FOLHA DA REGIÃO NO DIA 27 DE JANEIRO DE 2008


Se o neologismo cine-filho criado pelo crítico Serge Daney servia-lhe para destacar a importância do cinema na sua formação e de mostrar de que maneira o percurso do cinema moderno fora também o seu, eu diria ser essa expressão aplicável também a muitos cinéfilos, ou cine-filhos, criados em empoeiradas locadoras pós-80.

A principal diferença da geração que se criou em vídeos-locadoras das anteriores, formadas em Cinematecas ou cineclubes, é a incomparável superioridade na formação intelectual adquirida pela geração de Daney.

É uma superioridade evidente pelo modo como o crítico se formou, pois quando teve a chance de mergulhar nas obras de certos cineastas, certamente ele não fez a imersão pelas metades ou com lacunas, pois as programações oferecidas nos cinemas parisienses deram a ele uma visão concreta, menos enevoada.

Aos cine-filhos da era do VHS, “precariedade” é a palavra-chave para a compreensão desse nebuloso período. A precariedade do VHS é também minha precariedade, minha defasagem em relação a obras de certos realizadores, de compreensão de certos filmes.

Precariedade imposta pela própria maneira como as fitas de VHS eram concebidas - as janelas de exibição das fitas privilegiavam o formato espremido da TV e não as proporções do cinema - e do modo como a história do cinema foi contada por intermédio das distribuidoras de vídeo.

As histórias do cinema nos foram dadas aos pedaços. Para um cine-filho da era do VHS, o cinema não começava com Lumière e sim com as fitas de Chuck Norris ou da série América Ninja. Para um cine-filho da era do VHS, o grande cinema não era Godard e sim Highlander.


A verdade é que os sobreviventes da geração do vídeo, os que restaram, construíram as histórias do cinema na raça, na vontade, no amor pela arte vencendo pelo cansaço. E grande parte do conhecido, o grande responsável por nossa formação, o nosso "cine-pai" certamente foi uma distribuidora como a América Vídeo. Aquela das capinhas em cor azul.

Como um filho, ou cine-filho, da América Vídeo, eu diria que todo meu aprendizado e amadurecimento passam pelas fitas emboloradas distribuídas pela empresa. Descobri o cinema pelos filmes de luta estrelados por Jean-Claude Van Damme. "Garantia de Morte", "Cyborg" ou "O Grande Dragão Branco" eram algumas das obras.

Da paixão pelos filmes de Van Damme, que nutria na infância, descobri no final da adolescência que amava "O Ano do Dragão", obra de Michael Cimino.

Com este filme, dei conta também que toda a obsessão do personagem central do filme, um policial disposto a consertar toda a história dos EUA, era também minha obsessão de querer ver todos os filmes do mundo, de refazer o percurso histórico do cinema a qualquer custo.

De "O Ano do Dragão", encontrei o filme "Os Amantes", obra essencial e dos raros feitos por John Cassavetes que foi lançado em vídeo.

A loucura da personagem de Gena Rowlands nesse filme, que levava sempre mais um animal de estimação para dentro da casa de seu irmão solitário, fazendo do lugar uma arca de Noé, não era muito diferente do ritual cinéfilo de sempre trazer mais uma fita de vídeo para dentro de casa, mesmo não tendo mais nenhum espaço sobrando na estante.

O que os filmes de Van Damme, os dirigidos por Cimino e Cassavetes tinham em comum era o fato de terem sido lançados pelo marginal selo.


O que se concluí dessas memórias um tanto desmemoriadas da era do VHS é que cada passo dado na afirmação de valores, de uma idéia de cinema em evolução, todo o caminhar se fez pelo auxílio das fitas da América Vídeo.

A precariedade do vídeo, as raras descobertas, a decadência do selo, o crepúsculo desses tempos... Toda essa história é também a minha.

5 comentários:

Anônimo disse...

Caro Diego, eu sou um sobrevivente da geração do VHS. Além das fitas "seladas", eu consumi (como todos na época) muito material "alternativo", já que a prática da pirataria era tolerada nos primeiros tempos. Até hoje tenho alguns dos filmes que adquiri nos anos 80, como Pavor na cidade dos zumbis, Demons, Incubus e outras pérolas do terror italiano e norte-americano. Eles ocupam muito espaço, mas tenho pena de mandar para o lixo. Seria como se desfazer de fotografias...
Carlos Eduardo M. Peters

Diego Assunção disse...

Olá professor, confesso que só agora vi que você comentou no meu blog morto-vivo. Bem, é claro que minha memória da infância ainda está viva o suficiente para eu sentir saudades do cheiro de poeira das fitas enfileiradas até o teto em uma daquelas locadoras antigas que mais pareciam pequenos templos e, ao mesmo tempo, prostíbulos. Porém, confesso que lamento ter perdido a chance de viver o auge da febre do VHS.

Afinal, fui atingido pelo vírus da cinefilia mais na adolescência e as locadoras já estavam substituindo suas fitas de vídeo por DVDs. Mesmo assim, antes do apocalipse dessa geração, consegui adquirir alguns fósseis dessa extinta Era para servir de provas e constituir meu “refúgio cinefílico”.

Empresas hoje estranhas como Poletel, FJ Lucas e Globo Vídeo ainda são reverenciadas por aqui, assim como filmes de terror quase impossíveis de se encontrar hoje em DVDs nacionais iguais aos “O Planeta dos Vampiros” (filme de Mario Bava), “Murder Rock – Cidade Violenta” e “Enigma do Pesadelo” (ambos do Lucio Fulci).

Anônimo disse...

Olá

Gostaria de saber se você ainda tem este VHS de "O Grande Dragão Branco", pois estou interessado em adquiri-lo. Você vende ele para mim?

Pode escrever para mim no: roger_coltrane@yahoo.com.br

Obrigado.

Thiago disse...

O seu post sobre a América Vídeo, falando de quando costumávamos ir as locadoras e alugávamos quatro, ás vezes cinco fitas, ficou excelente. A saudosa América Vídeo é um simbolo deste tempo, que infelizmente não volta mais. Hoje sinto saudade daquelas fitas , tão características, de capa azul, com filmes estrelados por Jean-Claude Van Damme ou pelo saudoso Charles Bronson. Esses foram bons tempos, dos quais nós, os cinéfilos, jamais vamos esquecer.

Thiago disse...

Diego, gostaria que você falasse algo sobre a distribuidora Globo Vídeo. Para quem não sabe, foi graças a Globo Vídeo que os cinéfilos brasileiros puderam ver em seus aparelhos de vídeo filmes que hoje são clássicos como O Exterminador do Futuro (primeira edição nacional do filme em VHS, de 1984), Robocop - O Policial do Futuro (primeira edição nacional do filme em VHS, de 1987) e McQuade - O Lobo Solitário (edição nacional do filme lançada em VHS no ano de 1983). Ficaria muito grato se você falar algo sobre a Globo Vídeo. Desde já sou grato por isso.