segunda-feira, 14 de julho de 2008

O QUE É O CINEMA?

PUBLICADO NA FOLHA DA REGIÃO NO DIA 06 DE JANEIRO DE 2008


Aí está uma pergunta que sempre nos pegamos a fazer. Muitos foram os pensadores que se propuseram a responder (de sociólogos a psicólogos, de filósofos aos próprios cineastas), mas nenhuma resposta parece satisfatória. Questão que nem esse artigo pretende esgotar, mas que serve para que notemos, afinal, o que nos fascina no cinema.

Já dizia o poeta não haver o amor, apenas suas provas. Acho que o mesmo vale pro cinema. Não existe uma entidade O CINEMA, apenas suas provas, ou seja, os filmes. Responder a questão “o que é o cinema?” é puxar na memória os filmes que amamos, pois não existe uma idéia de cinema, uma especificidade da arte. Há os filmes, essas provas de amor, há idéias de cinema e as singularidades de cada filme.

Partindo daí, creio ser a melhor definição para cinema, e também a mais nebulosa, uma de Jean-Luc Godard (sempre ele), talvez parafraseando seu mentor André Bazin: "o cinema não é uma arte, nem uma técnica, é um mistério".

Cinema é um mistério por permanecer como a arte do real. Não o real do tratamento de assuntos cotidianos, de ser a própria realidade a matéria prima da arte, mas pelo cinema ser o desenho deixado pela realidade na película.

Segundo o raciocínio de Bazin, amamos certos filmes por eles colocarem a câmera em lugares e em certas situações que não pudemos presenciar, mas que podemos testemunhar. O crítico francês gostava de fazer analogias do cinema com o véu de Verônica, "colocado no rosto do sofrimento humano", ou com as pegadas de Sexta-Feira que aterrorizava Robinson Crusoé, "não porque elas se pareçam com Sexta-Feira, mas porque foram realmente feitas por eles".

Por sua vez, o pensador Merleau-Ponty fez uso do cinema para firmar um ponto de vista sobre algumas teorias da psicologia: um indivíduo não revela sua exterioridade através de seu interior, mas sim este é revelado por seu exterior, pelos seus gestos e expressões.


Sendo o cinema, segundo Rogério Sganzerla, “ritmo e movimento, gesto e continuidade”, isso significa que a presença do ator e a delimitação de seu mundo pela câmera do diretor levam o espectador diretamente à verdade da alma humana, à verdade do cinema e da vida, concluindo ter o cinema não a função de preencher um buraco na parede, mas de ser uma janela sobre o mundo.

Como evidencia a denominação inglesa para a palavra filme (movie), o diferencial da arte sobre as outras é o movimento, essa ilusão ótica em 24 quadros estáticos por segundo que reproduz o movimento da vida. Verdade ou mentira? Pouco importa. Importa é a impressão do real, o véu de Verônica, as pegadas de Sexta-Feira.

Se essas são meras idéias, qual seria a prova, qual seria o filme a corresponder com elas? Eu diria que essa prova atende pelo título “Eu, um negro”, filme que o etnólogo francês Jean Rouch fez nos anos 50 ao levar sua câmera portátil para a Costa do Marfim no intuito de filmar a rotina de alguns jovens.


Rouch, porém, não pretendia fazer somente um documentário, pois a realidade em sua essência ia muito além do ato de capturar o cotidiano de meia dúzia de pessoas. Rouch era louco o suficiente para embarcar nas idéias de Bazin, torná-las materiais com seus filmes ao ponto de fazer dos jovens africanos atores, encorajando-os a representar suas próprias vidas e reinventá-las ao se tornarem Tarzan, Edward G. Robinson ou Dorothy Lamour.

Realizada em 1958, a obra de certo modo resolvia um impasse que desde cedo acompanhou o cinema: seria o cinema a arte da realidade pretendida pelos inventores do cinematógrafo, os Lumières, ou um truque de mágica, como nos filmes do ilusionista Georges Mélies? Como disse Godard (de novo), em texto sobre o filme de Rouch: "todo documentário tende à ficção, e toda ficção tende ao documentário".

Ao se tornarem Edward G. Robinson e Dorothy Lamour, os trabalhadores africanos do filme não se fizeram de farsantes e nem o filme se tornou menos verdadeiro, ao contrário, ao se reinventarem para a câmera, os “atores” realmente expuseram seu sentimentos. Ao pender para a ficção, Rouch documentou as almas dos seus personagens.

Em uma cena deflagradora, Robinson leva Dorothy para o baile. Eles bebem e danças após uma semana difícil de trabalho, dançam entre paredes decoradas por pinturas de casais negros dançando, imagens rústicas de cores tão vivas e destoantes como as do próprio filme.


Em meio a essas figuras na parede, há um cartaz de um filme estrelado por Marlon Brando. O que nos diz essas coisas? Assim como o astro branquelo se enfia e rouba a beleza das expressões artísticas locais, um turista italiano tira Dorothy dos braços de Robinson e a seduz com seu charme ocidental - como os heróis europeus e americanos seduziram os jovens filmados por Rouch ao ponto deles assumirem seus nomes.


O filme de Rouch tem muito desse espírito utópico de que o cinema pode ser importante, que o cinema pode dizer muito sobre nós mesmos e, até mesmo, como queria o cineasta Rainer W. Fassbinder, salvar-nos. "Eu, um negro" é minha resposta para a pergunta “o que é o cinema?” porque não é uma obra sobre as precariedades da vida de um lugarejo africano nem apenas sobre a feroz influência que o ocidente exerce sob a região.


"Eu, um negro" aborda questões como as levantadas acima, mas o faz contaminando cada minuto do filme com o senso de aventura e o calor passional de alguma fita do Tarzan com a atriz Dorothy Lamour. A vida caminha no filme de Rouch, mas caminha paralelamente pelas estradas do cinema.

O que é cinema? Cinema é o filme "Eu, um Negro", mas é também a chegada do trem dos Lumières ou as cabeças giratórias de Mélies; a história da França feita a estória de uma adolescente mimada em "Maria Antonieta", de Sophia Coppola, ou a estória da viagem entre mãe e filha feita a História da civilização européia no "Um Filme Falado", de Manuel de Oliveira. Bem, cinema é essa arte do real feito pela ilusão, esse eterno mistério.

3 comentários:

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