quinta-feira, 24 de abril de 2008

"ÚLTIMOS DIAS": CLÁSSICO E MODERNO

PUBLICADO NA FOLHA DA REGIÃO NO DIA 09 DE SETEMBRO DE 2007


“Últimos Dias” não é um filme preocupado em desvendar a vida ou firmar hipóteses sobre a morte de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana. Contrariando um público ávido por uma obra dramatizada ao estilo do programa “Linha Direta”, o cineasta Gus Van Sant buscou na reclusão do vocalista o necessário para extrair um cinema embrionário.

Gus Van Sant se aproxima mesmo de Kurt Cobain, especificamente do último álbum da banda, o “In Utero”, quando se apega às características rudimentares do cinema para descrever os passos do jovem músico transviado.

Se no álbum Cobain canta e clama por seu cordão umbilical, ou seja, deseja retornar a um estágio inicial de pureza que não mais seria recuperado, “Últimos Dias” se constrói como se Gus Van Sant estivesse recolhendo os cacos deixados pelo filme “Juventude Transviada”, de 1955.


Nicholas Ray fez do filme que imortalizou James Dean uma das obras expoentes do que se convencionou chamar cinema moderno. Como um filho rebelde, o cinema moderno desafiava o pai, o cinema anterior, renegando seu parentesco em nome da renovação.

Em “Juventude Transviada”, os sentimentos extremados resultavam em numa estética de cores berrantes e encenações virtuosas, onde os gritos de desespero dos personagens eram acompanhados pelo grito desesperado da câmera. Já no filme “Últimos Dias”, o jovem não mais possui um referencial paterno e nem força ou razões para gritar.

O pai se tornou um vendedor de páginas amarelas ou um detetive misterioso e a rebeldia se transformou em melancolia, por essas e outras que Gus Van Sant se propôs a fazer o acerto de contas entre pai e filho, entre o cinema tido como clássico e o moderno.


Em “Últimos Dias” há a mansão onde os jovens se isolam do mundo, vivem à margem das leis que regem o mundo dos homens, dos pais. É uma mansão não muito diferente daquele no qual James Dean se refugiava com seus amigos para se tornar seu próprio pai.

Mas o que envolve esse lugar é a natureza, um universo misterioso aos olhos juvenis e mundo que possibilita à Blake (o personagem inspirado em Kurt Cobain) redescobrir certa beleza das coisas que estavam escondidas por trás de um passado de muitas transgressões.

Revelação similar que já fora sentida no filme de Nicholas Ray, na cena em que os jovens visitam um planetário, porém sem ter havido a efetivação de qualquer conciliação.


Comprometidos com o mundo moderno, dos carros com os quais se disputavam rachas, parecia irreconciliável o retorno dos jovens ao estágio embrionário, à natureza, aos pais. O que havia nas cenas do planetário em “Juventude Transviada” era o assombro, um deslumbre somente.

Deslumbre que no cinema contemporâneo encontrou no “O Selvagem da Motocicleta”, dirigido por Francis Ford Coppola em 1983, o primeiro sinal de reconciliação entre uma juventude rebelde não mais livre - mas sim aprisionada em sua melancolia - e a natureza, figura referencial de uma paternal, benévola, liberdade.

Enquanto no filme “O Selvagem da Motocicleta” não só o pai era um bêbado - figura não coincidentemente interpretada por Dennis Hopper, um dos jovens rebeldes do filme de 55 - como a conciliação com a natureza parecia fadada ao fracasso - ao libertar peixes de um aquário, o motoqueiro selvagem interpretado por Mickey Rourke é morto.


No início de “Últimos Dias” o pacto parece também irremediável, quer seja pela câmera que adentra no bosque com o jovem Blake sem conseguir não enquadrar ou capturar o som de um trem que passa por trás das árvores ou ainda pela cena no qual a “expedição” de Blake é enquadrada por uma pequena janela dentro de um quarto que exibe na TV um videoclipe modernoso de uma banda qualquer.

Gus Van Sant intensifica sua busca por um cinema revigorado capaz de extrair, do que o cinema tem de mais rudimentar, um olhar livre do espectador. Por isso os planos vão se alongando, os cortes tornam-se tão sutis e escassos quanto os movimentos da câmera e a dramaturgia simplesmente se esfarela.

A tela que em “Juventude Transviada” era panorâmica retoma as proporções menos retangulares do cinema pré-anos 50, discursos e diálogos em demasia são limados e a extensão da encenação praticada por Ray-Dean na cena da cadeia invade todo o filme de Van Sant e tem seu pathos (excesso, paixão, sofrimento) esvaziado. A explosão se dissipa.


Poucas vezes no cinema o simples ato de se colocar leite no cereal foi tão barulhento, dramático e estranho quanto em “Últimos Dias”, poucas vezes um diálogo foi tão confuso quanto aquele no qual Blake ouve a reclamação de um amigo sobre a falta de um ar-condicionado na mansão, poucas vezes uma paisagem natural foi tão enervante.

Esses “signos do caos” são estranhamentos que levam o espectador a sintonizar-se com o descompasso do personagem perante o mundo e que torna muito mais veemente a experiência de se acompanhar a transformação de Blake em parte integrante do mundo que habita.

O momento em que o pacto finalmente se concretiza, o momento no qual a natureza e Blake entram em sintonia, é o ápice do filme. A câmera muda de posição: enquanto Blake está dentro da casa, se preparando para tocar uma música, a câmera o filma do jardim, através de uma janela.


Ele tira o som de sua guitarra, as árvores balançam suavemente. A câmera se distancia da janela onde se vê Blake no decorrer da música, enquanto ela se intensifica. Blake, em estado de fúria, troca de instrumentos e o vento que move as árvores entra no compasso de sua fúria. Ao término, uma conclusão: o personagem ditou o ritmo da natureza, a fez mover-se ao som de sua música.

Se em “Juventude Transviada” levar um carro para o precipício denotava a morte certa, se em “O Selvagem da Motocicleta” a alma de Rusty James, irmão do motoqueiro, voava para longe e, em seguida, retornava ao corpo como se tudo não passasse de um delírio, em “Últimos Dias” os conflitos se apaziguam.

Como o título explicita, o filme é sobre um rapaz que vive seus últimos momentos antes de cometer suicídio. A morte aparece ao final, como no filme de Francis Ford Coppola, mas, em “Últimos Dias”, ela é só mais um passo dado rumo à luz, que impulsiona a alma para fora do corpo e a restitui para a natureza.

Um comentário:

joanan prates disse...

Olá Diego! Li, no seu blog, o texto "últimos dias": muito bom! Muito boa também a relação estabelecida com os outros filmes: Rumble fish e Juventude transviada.