quinta-feira, 1 de maio de 2008

SCORSESE: DIAS RUINS

PUBLICADO NA FOLHA DA REGIÃO NO DIA 23 DE SETEMBRO DE 2007

Martin Scorsese sempre expôs sua condição de cinéfilo na indústria de Hollywood, tendo feito até, por muitas vezes, o chatíssimo papel de "porta-voz" da cinefilia norte-americana.

Scorsese já depôs sobre cineastas em entrevistas para lançamentos de edições especiais em DVDs de vários filmes do passado e também realizou documentários sobre o cinema norte-americano e o italiano.

Porém, com o passar dos anos, sua paixão exacerbada pelo cinema serviu de colete à prova de balas para que seu trabalho ficasse intocável numa redoma de vidro. Criticar um filme de Scorsese equivale a um crime para qualquer cinéfilo.

A verdade é que os artistas são humanos, ou seja, eles erram e passam por dias ruins. Com Martin Scorsese não é diferente. Se muitos dos seus amigos de geração erraram e tiveram seus equívocos reconhecidos, por que não tirar o colete do realizador de "Taxi Driver", de 1976, e "Touro Indomável", de 1980?


Se Francis Ford Coppola fez "Jack" (aquele mesmo, com Robbin Williams) e Brian De Palma realizou fiascos iguais ao "Quem tudo quer, tudo perde", qual o problema em dizer que "Cabo do Medo", 1991, é um filme ruim de gênero enrustido de "grande arte" ou, ainda, que "O Aviador", de 2004, é um verdadeiro elefante branco?

Martin Scorsese vive dias ruins e seu último trabalho, "Os Infiltrados", é um bom exemplo disso.

"Os Infiltrados" é como uma caricatura de outros trabalhos do Scorsese. Começa como "Cabo do Medo", um filme de gênero tentando elevar sua "qualidade": para mostrar os conflitos étnicos que assolam Boston - mafiosos irlandeses, traficantes italianos e negros -, o cineasta não encena qualquer rotina de tais grupos, ele não constrói um mundo no qual a trama, de policiais infiltrados na máfia e mafiosos infiltrados na polícia, possa ganhar uma projeção dramática.


Ao contrário de qualquer solução eficaz, o cineasta simplesmente falsifica uma cena documental no qual gangues se digladiam e testemunhas depõem defronte a câmera treme-treme da suposta reportagem. Para ficar mais "cool" ou se auto-reverenciar, Scorsese dita o ritmo dessa baboseira com uma música do Rolling Stones (banda utilizada em outros filmes do cineasta, como no "Caminhos Perigosos", de 1973).

A música também introduz o personagem de Jack Nicholson, Frank Costello, o chefão da máfia em Boston que conecta todas as tramas, envolvendo as investigações policiais do agente infiltrado feito por Leonard Di Caprio e os serviços de contra-espionagem realizados pelo mafioso infiltrado na polícia, e afilhado de Frank, interpretado por Matt Damon.

Frank não é um mafioso comum. É um total psicótico, que não para de pensar em sexo até mesmo quando está a matar um inimigo. Ele trata seus crimes como se estivesse realizando obras de arte. A presença sempre desestabilizadora dele não funciona como a atuação do Joe Pesci em "Os Bons Companheiros", de 1990, que fazia do humor um barril de pólvoras nas suas cenas.


A presença de Frank Costello é lapidada por Jack Nicholson não como se estivesse em um "típico" filme de máfia, mas como se reprisasse seu papel de Coringa no "Batman". Desse modo, Nicholson é o único em cena a ter plena consciência do tom caricatural do filme, de obra que aspira a uma piada de mau gosto.

Enquanto o vilão trabalha na contramão, o filme caminha para um beco sem-saída. A estrutura fragmentada do filme - que sobrepõe cenas de violência, do trabalho dos infiltrados, às suas crises pessoais - é tirada de "Touro Indomável", que tinha as cenas de luta do boxeador sobrepostas às brigas do personagem com sua família.


A montagem agressiva, em blocos, do filme de 1980, que servia à dramaturgia para mostrar como as lutas do boxeador funcionavam como extensão de suas crises e brigas domésticas, no filme “Os Infiltrados” em nenhum momento tal recurso parece se justificar.

A preocupação do Scorsese em interpretar o papel de porta-voz da história do cinema levou-o a se preocupar mais em preencher os enquadramentos do seu filme com os Xs, homenageando o filme “Scarface”, de Howard Hawks, que era cheio deles, do que em absorver o complexo mundo de seus personagens para a superfície da tela.

As bruscas mudanças temporais colaboram mesmo para distanciar o espectador dos dilemas dos personagens, pois nunca os gestos deles justificam a afeição que nutrem por seus chefes ou exprimem a dureza de se manter escondido e levar uma vida dupla.


Há uma cena que parece, assim como Jack Nicholson, ter consciência da insuficiência do filme: num cerco armado por policiais para pegar o mafioso com as mãos na massa, algum oficial se esquece de botar uma câmera de vigilância no fundo do galpão onde se desenrola a ação. Ele esquece de colocar a câmera exatamente no espaço por onde se concretizará o ato.

O filme é essa cena, um conjunto de eventos filmados pelo ângulo errado.

2 comentários:

Rod disse...

Tu bebeu o que, pra falar tamanha bobagem ?

Roger disse...

Você bebeu qual cachaça pra falar tantas abobrinhas ?